Os olhos pararam um instante mais para a última lágrima. Enxugue isto, lhe disseram. As dores pequeninas também crescem, embora eles tenham esquecido.
Eu poderia chorar se quisesse, mas todos esses motivos parecem inacreditavelmente ridículos quando saem de mim, de qualquer forma. Meus lábios não parecem ter realismo o suficiente para não torná-los pequenos e meu vocabulário não ajuda com suas palavras rasas.
As solidões se encontraram de frente e perto da colisão só sobraram palavras retorcidas, galhos tortuosos da mata branca que cresceu em solo seco. Os ouvidos fatigados foram feridos uma última vez, antes do coração pulsar descoordenado e tingir de vermelho o ponto de vista. Eram os fantasmas de dentro acenando suas discórdias, eram os fantasmas de fora desenhando seus contornos. As ilusões oportunistas investem com mais afinco, envenenando a mente com seus olhos de lembranças e engolindo o tempo gulosamente.
Sorveu o copo de areia molhada que lhe deram; era a vergonha que empapava sua pele e escorria pelas têmporas. Os olhos fechados para não sentir dor, sem perceber que o flagelo encravado no peito vinha de dentro para fora. Não adiantaria se fechar ali, no escuro, se a colcha de espinhos forrava o avesso. Os dentes cerrados obrigavam os gemidos e os gritos a condensarem-se, escapando pelas brechas nos cílios.
Seus reflexos cálidos me deixavam à deriva e as forças se esvaiam. Tudo se tornava mais suave, mais sutil, mais delicado. A luz se tornava morna, o som parecia cristalino. O toque tinha sabor. E no meio da vagarosa constatação sinestésica, percebi minha cabeça pesar. Eu não pertencia àquilo. Eu era densa demais para uma existência tão leve, minha aura negra manchava os tons pastéis. Tonteei ebriamente sem encontrar consolo. O que antes era calmaria, ardia-me a pele e embrulhava-me o estômago.
Quando minhas palavras dizem mais para mim que para os outros, é hora de rever meu silêncio.
Para ser escrevedor tem de ser sincero e para ser sincero há de ter-se coragem. Coragem para se expor em cada linha, para defender suas convicções, para mostrar suas crenças diante do mundo de fora, ainda que elas não sejam exatamente ortodoxas, ou, principalmente, se forem especialmente tradicionais. Coragem nunca foi artigo apenas de guerreiros e de príncipes, também esteve nos lugares mais inesperados: dentro de artistas.
Eu não me sinto mais segura e, para falar a verdade, nem sei mesmo qual dos lados vou escolher. Se eu tivesse ao menos alguma parte de mim que me segurasse aqui. Alguma fonte externa de motivação. Eu não confio mais em mim. E não posso dizer com certeza o que eu faria na hora H. É fascinante como até as cores parecem iguais quando não se tem fé. Os lugares que deveriam acolher causam repulsa. Tudo tem convergido para o mesmo ponto, como se todos quisessem me atirar daquele abismo. Eu venho andando muito perto da borda, admito.
Ainda não sei de que lado vou ficar. Nem espero ficar em lado algum. Nem temo por ninguém que por ventura se machucará pelas minhas escolhas. Ninguém que se fie em minhas frágeis perspectivas merece meu perdão.